Multiartista de Belém, no Pará, Digestivo parece ter encontrado no que há de mais abjeto a principal fonte inspiração para o provocativo repertório de Mofo (2024, Acta). Sequência ao material apresentado há três anos, em Visceral (2021), o registro marcado pela corrupção das formas instrumentais e rítmicas parece jogar com a interpretação do ouvinte durante toda a sua execução. Composições que partem de doenças, estranhas formas de vida e fluidos corporais como um importante e sempre mutável componente criativo.
Ainda que a estética e a sonoridade instantaneamente remeta aos trabalhos de artistas como Arca e Jesse Kanda, Digestivo tem sua identidade ressaltada e parece jogar com regras próprias. Com Fungi como faixa de abertura, parte dos elementos que compõem o disco são prontamente revelados ao ouvinte. São batidas fragmentadas, incontáveis camadas de sintetizadores e texturas eletrônicas que até buscam dialogar com as pistas, porém, corrompem de maneira bastante decidida qualquer fração de conforto e previsibilidade.
Uma das primeiras canções do disco a serem reveladas ao público, Experimento, originalmente lançada há dois anos, sintetiza de maneira bastante eficiente essa meticulosa capacidade de Digestivo em perverter o óbvio. Enquanto os minutos iniciais da composição estabelecem uma atmosfera urbana, efeito direto das sirenes que se misturam aos sintetizadores, batidas metálicas, quebras e demais componentes levam o material para outras direções, culminando na entrega da música seguinte, a também imprevisível Bolor.
Mesmo quando estreita laços com outros parceiros criativos, Digestivo nunca deixa de testar os limites da própria criação. Em Carcaça, por exemplo, são vozes parcialmente submersas que se completam pela interferência de Joaquim Ramalho. Nada que prepare o ouvinte para o que se apresenta em Fragmento. Também revelada anteriormente, a faixa completa pela participação de Yvu chama a atenção pela firmeza das batidas, proposta que faz lembrar das composições de Aphex Twin e outros nomes da década de 1990.
Dos poucos momentos em que desacelera, como em Musgo, delicada parceria com Mexo, Digestivo diminui a sensação de impacto que marca os minutos iniciais do disco, porém, preservando a riqueza do material. São estruturas contrastante quando pensamos na força avassaladora que orienta a formação de Ácaro, Furúnculo e demais canções posicionadas na porcão inicial do disco. Um misto de calmaria e caos, como se Mofo partilhasse do mesmo equilíbrio alcançado por SOPHIE em Oil of Every Pearl’s Un-Insides (2018).
Interessante observar que, mesmo marcado pelo insano atravessamento de informações, Mofo em nenhum momento rompe com o que parece ser um limite estrutural proposto por Digestivo. São batidas, texturas sintéticas e timbres que continuam a orbitar um mesmo território criativo, ainda que exploradas das formas mais absurdas possíveis. Pequenas assinaturas sonoras que, invariavelmente, até resultam em repetições estruturais, porém, são prontamente reconfiguradas, ampliando de maneira única os limites do material.
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